Por que é tão difícil defender a democracia e como a extrema direita explora isso

Com o avanço do autoritarismo no mundo, há um esforço de partidos, instituições e pessoas de ressaltar que, apesar de ser um sistema imperfeito, a democracia é o melhor que há. Todavia, esse discurso não parece ganhar muita tração, já que a extrema direita sem apreço aos valores democráticos ganha terreno rapidamente — algo que, apesar de triste, é compreensível e será explicado abaixo com dados.

 

Democracias plenas são poucas e o autoritarismo cresce

 

Conforme o Democracy Index, da Economist Intelligence Unit (EIU), a partir de dados coletados em 2023, apenas 8% da população mundial vive em democracias plenas, existentes em somente 24 países. Enquanto isso, quase 40% das pessoas vivem em sistemas autoritários, número que só cresce.

O próprio Brasil não é encarado como uma democracia plena. Embora o país tenha um regime democrático e eleições regulares, ele é classificado como uma “democracia imperfeita” devido a problemas como fragilidades institucionais, polarização política, desigualdade social e econômica, violência e insegurança, além de desinformação e desconfiança nas instituições.

Para a Oxfam Brasil, o Brasil é, em verdade, uma plutocracia. Ou seja, tem um governo exercido ou influenciado pela classe mais rica da população. Dados do seu relatório que discute a relação das desigualdades e o poder corporativo global mostram que 63% da riqueza brasileira está nas mãos de 1% da população. O levantamento também aponta que os 50% mais pobres detêm apenas 2% do patrimônio do país.

A organização ainda ressalta que a atual estrutura econômica do mundo concentra riqueza, empobrece e mata milhões de pessoas, destrói o planeta e coloca em risco o futuro da existência humana.

 

Lobby de um lado, migalhas de outro

 

Não é nada difícil perceber que, no Brasil, determinados setores privilegiados fazem o que bem entendem. Costumeiramente saem notícias do lobby feito no Congresso Nacional para que certas pautas sejam aprovadas e outras, enterradas.

Enquanto a “democracia” brasileira governa para quem detém poder econômico, boa parte da população vive com as migalhas que restam.

O grupo dos 1% mais ricos do Brasil tem um rendimento médio mensal 39,2 vezes maior que os 40% com os menores rendimentos, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), com dados de 2023.

A situação é pior para pessoas negras. Em 2022, a renda das pessoas brancas era em média 87% maior que a renda das pessoas negras, conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A maior distância era entre as mulheres negras e os homens brancos.

 

Terreno fértil para a extrema direita

 

Além da profunda desigualdade, há também muita desconfiança no Brasil com relação à mídia tradicional. A publicação do Digital News Report 2024, maior compilação de dados de consumo de notícias do mundo, organizada pelo Instituto Reuters, mostra que quase 60% de cidadãos ficam desconfiados com o que publicam hoje portais, jornais e noticiários televisivos no país. É um número lamentável, mas não surpreendente: basta lembrar do papel macabro da grande imprensa nos golpes de 1964 e de 2016 e fica fácil intender o porquê da credibilidade abalada.

Fato é que toda e qualquer notícia da imprensa tradicional precisa ser consumida com cuidado. Todavia, as pessoas também precisam ser céticas com as informações que circulam em outros lugares — o que nem sempre acontece.

Com a falta de regulação das redes sociais, a mentira se prolifera rapidamente online. Esse é um terreno fértil para a extrema direita, que dissemina o ódio e mentiras deliberadamente.

Com uma democracia — plutocracia? — tão injusta e brutalmente desigual, as pessoas são facilmente levadas para o autoritarismo. Pior do que isso: compram a ideia de que minorias e imigrantes são a causa de todos os problemas. Enquanto grupos marginalizados são usados como “bodes expiatórios”, o sistema econômico que opera as desigualdades é mantido inalterado, muitas vezes é até mesmo aprofundado em suas crueldades.

A solução para um sistema imperfeito obviamente não recai no autoritarismo. No entanto, fica cada vez mais evidente, até mesmo com a piora da catástrofe climática em curso, que uma reforma é necessária para que as pessoas vivam com a dignidade que merecem e entendam que o sistema democrático deve ser defendido e fortalecido.

Enquanto a política for feita apenas para alguns, a imensa maioria estará à mercê de salvadores da pátria com ideias perversos.

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