A festa da democracia virou um enterro. Passadas as eleições no Brasil e nos Estados Unidos, ficou óbvia a vitória de conservadores e reacionários. Estamos no momento no qual derrotados buscam culpados — seriam eles próprios? — e oprimidos viraram mais uma vez saco de pancada. Sim, aqui e ali há o discurso de que determinados partidos perderam por causa da pauta identitária. Para muitos, Ciro Gomes, a nova musa da extrema direita, foi profético ao esculhambar a luta de mulheres, população queer, negros e demais marginalizados. Para dar início a este artigo, vou recorrer a um aspecto histórico que tem paralelo com o momento atual.
Republicanos eram abolicionistas e democratas, escravizadores
Pode parecer incompreensível no cenário atual, mas os papéis eram de certa forma opostos durante a Guerra Civil dos Estados Unidos, ocorrida na segunda metade do século 19. À época, os democratas sulistas se opuseram ao fim da perversa escravidão. Foram os republicanos do norte que lutaram pelo fim de violação tão grave dos direitos humanos.
Mesmo com a derrota, os democratas sulistas não se deram por vencidos. Trataram de passar leis que dificultavam o acesso de negros ao voto. Ou seja, terminara a guerra, mas não terminara o racismo e o elitismo. Em determinado ponto, os republicanos deixaram o tema de lado, concluíram que já tinham feito a parte deles e voltaram-se para suas próprias pautas.
A luta da comunidade negra obviamente não se encerrou ali. Salvaguadadas por partidos ou não, as pessoas seguiram nas suas organizações que pediam o fim da desigualdade e da hostilidade. Com muita pressão e a presença de ícones como Malcolm X e Martin Luther King Jr., na década de 1960, movimentos sociais foram responsáveis pela aprovação da Lei dos Direitos Civis, que proíbe a discriminação institucional.
A lei foi aprovada durante um governo do partido Democrata, que começou a se transformar em abrigo para grupos que pediam direitos. Racistas, misóginos e queerfóbicos, por outro lado, foram migrando para o lado republicano.
Décadas depois, temos um cenário no qual o país está rachado e muitos querem que os democratas façam hoje o que os republicanos fizeram há mais de um século: deixar oprimidos por conta própria.
O canto da seria da extrema direita está funcionando
Não é preciso muita análise para perceber que a extrema direita usa as minorias como espantalho. Reacionários criam mentiras descaradas para animar uma base eleitoral bestializada. Em verdade, são eles que estão diariamente falando sobre o tema até a exaustão.
O ódio é tanto que na falta de uma competidora trans nas Olimpíadas, usaram a boxeadora argelina Imane Khelif, uma mulher cisgênero, como alvo como se ela não fosse mulher o suficiente — uma polêmica infundada e cruel alimentada por veículos de comunicação que buscam cliques acima de tudo.
Até mesmo figuras como a economista Monica de Bolle, que eu gostava tanto de ouvir fazer suas análises no UOL, caíram na ladainha da extrema direita. Após a vitória de Donald Trump, foi avisar que os problemas são a extrema esquerda e as pautas identitárias. Que extrema esquerda, cara Monica? Os democratas são de direita, o Partido dos Trabalhadores (PT) faz um governo de centro, aqui e lá acenam para conservadores descaradamente. Não há uma força política de grande expressão fazendo, na prática, uma luta de esquerda, muito menos de extrema esquerda, no Brasil ou nos Estados Unidos.
Os verdadeiros problemas não são abordados
Vivemos em sociedades profundamente desiguais e como bem falou a economista Maria da Conceição Tavares, ninguém come PIB. Não adianta Joe Biden e Lula celebrarem o crescimento econômico de seus países se a imensa maioria da população passa dificuldades.
Vivemos, em verdade, em pseudodemocracias. Quem manda de verdade é quem detém o poder econômico. O premiado jornalista David Sirota, indicado ao Oscar de melhor roteiro por Don’t Look Up, escreveu uma crítica muito pertinente sobre o papel corrupto de milionários na disputa eleitoral norte-americana. A verdade é que os democratas não conseguem encontrar soluções reais para a classe trabalhadora porque eles prestam contas para as pessoas que se beneficiam de um sistema econômico tão atroz.
Os republicanos estão no mesmo barco, mas ao menos conseguem nomear vilões — por mais errados que possam estar, prometem mudança e dão alguma resposta para a família que está endividada e sem perspectiva alguma de melhora.
Veja bem, Biden pode falar o quanto quiser que está do lado dos mais pobres, mas isso não muda o fato de que a imensa maioria da população não tem condições financeiras suficientes para comprar uma casa própria, nem mesmo para alugar um lugar decente para morar. A situação atual é grave e ninguém luta contra o status quo.
A mesma coisa no Brasil. As pessoas estão em trabalhos com cargas exaustivas e ganham uma miséria. Para piorar, vivemos realidades cada vez mais precarizadas. O que o PT tem a oferecer? Carteira assinada e um salário que não paga nem as contas básicas.
Na falta de uma luz no fim do túnel, oportunistas como Pablo Marçal proliferam. Vendem a resposta fácil, como se qualquer pessoa com fé e força de vontade possa virar milionário do dia para a noite. É uma promessa de prosperidade que não faz sentido, mas é o melhor que o capitalismo tem a oferecer. As pessoas aceitam ser ludibriadas porque é melhor ter uma chance mínima de melhorar de vida do que chance nenhuma.
A luta identitária precisa de aliados, não inimigos
Veja bem, é fácil entender por que muitas pessoas torcem o nariz para a pauta identitária. Imagine por um segundo que você é um homem branco e pobre que trabalha 44 horas por semana, está voltando do serviço em um trem lotado, não sabe como vai sustentar a família com a miséria que ganha, está cansado, triste, sem perspectiva e vem uma mulher negra apontar o dedo na sua cara dizendo que você é privilegiado. Que merda de privilégio é esse?
Grupos oprimidos precisam gastar menos energia apontando vilões e mais buscando aliados. A luta feminista não será eficaz sem o apoio de homens. A luta antirrascista não será eficaz sem o apoio de brancos. A luta contra a queerfobia não será eficaz sem o apoio de héteros e cisgêneros.
É preciso congregar, não dividir. É preciso também, antes de mais nada, entender que movimentos sociais não devem se submeter aos interesses de partidos.
O PT faz um governo conservador. Está a maior parte do século 21 no poder e não leva adiante pautas necessárias, como a reforma agrária.
O governo brasileiro só avança quando pressionado. Um bom exemplo é a questão antirracista. O Brasil foi condenado em instâncias internacionais no início dos anos 2000 por causa da manutenção do racismo estrutural em nosso país. Só depois que timidamente avançou em medidas de reparação — tardias e insuficientes.
Se o PT quiser fazer hoje o que o partido Republicano fez no passado, ótimo. Só é preciso lembrar que nenhum movimento social tem subserviência aos petistas e que a luta identitária certamente continuará.
Reacionários querem acabar com a luta contra a discriminação? É fácil, basta deixarem de ser preconceituosos. Enquanto houver racismo, misoginia, queerfobia, xenofobia e tantas outras formas de ódio, a luta de pessoas hostilizadas será uma constante — com ou sem o apoio da esquerda, de petistas e de democratas.
Douglas Roehrs é jornalista, escritor e cineasta. Criador do ecossistema da Insígnia Filmes.



Deixe uma resposta