A esquerda nasceu revolucionária. Era a luta do proletariado contra a burguesia. A busca pelo fim da exploração, de uma vida mais digna e menos desigual. A classe trabalhadora disse basta. Em contraponto ao capitalismo, tinha-se agora o comunismo e, no meio do caminho, o socialismo.
O tempo passou, os percalços do povo que dá sustentação à pirâmide social continuam enormes. O peso de um pequeno grupo de abastados é sustentado por corpos que sangram.
Em um contexto socialmente tão aterrador, é perfeitamente compreensível o sopro de esperança que foi, em 2022, a vitória nas urnas de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores. Nordestino, pobre, ex-metalúrgico, o líder sindical de esquerda representava uma quebra de paradigmas.
Todavia, a Carta ao povo brasileiro e a escolha do vice, José Alencar, já deixaram nítido que a revolução ficara de lado. Em troca do poder, adotara-se uma política de conciliação.
É inegável que o petista tenha feito dois governos exitosos. Os números estão aí para provar. Combateu-se a pobreza e a fome, o país deu um salto tão grande que nem escândalos como o do mensalão foram capazes de apagar o brilho de Lula, que acabou o segundo mandato com aprovação nas alturas e conseguiu eleger sua apadrinhada política, Dilma Rousseff.
O que a burguesia, que tanto se beneficiou economicamente nessa época, fez com o sucesso do PT? Surtou, óbvio. Jornalões pingavam ódio ao partido, alimentaram durante anos e anos um antipetismo que cresceu e virou um monstro tão grande que, após dado o golpe na Dilma, não foram os tucanos a ficarem com os espólios. Quem recebeu o banquete e comeu feito porco à mesa foi a familícia Bolsonaro.
O Brasil precisava ser salvo — e Lula, livre das condenações da Laja Jato, que o perseguiu politicamente, estava disposto não apenas a voltar ao poder, mas também a esgaçar mais e mais os ideais que um dia nortearam o seu partido.
Os eleitores novamente elegeram Lula, mas também um Congresso profundamente conservador e reacionário, o que em nada ajuda. Não que pudéssemos esperar algo muito diferente, já que Lula distribuiu prosperidade vazia, seguiu religiosamente a cartilha capitalista. A nova classe média, em consequência, come costela e arrota picanha.
O resultado é um governo federal desfigurado. Se diz de esquerda, mas na melhor das hipóteses é de centro, resvalando obviamente para a direita. A política econômica é neoliberal. A pauta dos costumes é conservadora.
Aliás, chega a dar enjoo participar de atividades políticas com lideranças do PT no qual eles autointitulam o governo como progressista. Para quem, afinal? A questão da ampliação do aborto, um direito humano básico para mulheres e demais pessoas que gestam, nem mesmo é mencionada. O casamento civil igualitário para casais do mesmo sexo foi conquistado no judiciário, bem como o respeito a identidades trans. A legalização da maconha nem passa perto de avançar. Enquanto isso, a polícia massacra a população negra e pobre.
Pasmem, a própria esquerda se autocensura. Vá alguém cometer a insensatez de criticar o governo federal e o fantasma de Bolsonaro é acionado.
Enquanto alguns servidores públicos recebem supersalários e são intocáveis, a imensa maioria na base da pirâmide é precarizada e sofre calada. Afinal de contas, agora temos um governo amigo dos trabalhadores, não?
A guinada nacional à direita causa tantos temores que até partidos como Socialismo e Liberdade, o Psol, caminham para se tornar o que juravam que nunca seriam: linha auxiliar do PT.
Forma-se assim uma unidade para combater o mal maior. Todavia, fica a pergunta: vale a pena?
Quando um governo que se acha de esquerda leva adiante a política da direita, estamos em apuros. A política desenvolvimentista de Lula, que antes já era questionável, agora é indefensável. Em um contexto de mudanças climáticas, seu governo não faz nem o mínimo para frear o fim da humanidade. Pelo contrário, estimula a produção desenfreada. A individualidade acima do coletivo. Faz o que todo capitalista faz: tem fixação no aumento do Produto Interno Bruto — como se pudéssemos comer PIB quando todos os rios secaram e todas as matas queimarem.
Ainda temos outro grande problema com a elite da esquerda, que se acostumou com o poder e gosta de viajar de avião pelo país e passar as férias no exterior.
A esquerda precisa parar de tratar o pobre como coitado
Se você escutar um liberal de direita e alguém de esquerda, os discursos são opostos e geralmente não permitem meio-termo. De um lado, há a meritocracia. Se alguém não melhora de vida é porque não se esforçou o suficiente.
Do outro lado, tudo é culpa do sistema. Há apenas dois papéis: mocinho e vilão. Ao enxergar uma fatia enorme da população como vítima, a esquerda tira dela a capacidade de ser um ator político ativo.
O que se sobressai é uma visão paternalista. Não se discute com o pobre, afinal, ele é um coitado que está sendo manipulado e não sabe o que faz. Logo, o partido toma as rédeas e precisa guiar o povo.
Cria-se assim uma hierarquia. A esquerda iluminada detentora do saber no alto, o pobre que não é digno de debate abaixo.
Nada mais desrespeitoso do que olhar para o outro como alguém completamente despido de sua autonomia.
Uma classe política acovardada
Lula e seus seguidores são incapazes de comprar briga pelo que acreditam. Dizem amém para tudo em troca de votos. Estão acovardados e mais preocupados com cargos do que com transformações estruturais.
O PT governou o país a maior parte do tempo neste século. Já demonstrou que veio para manter o status quo. Triste é ver que leva consigo qualquer resquício de resistência. O que sobra são poucos lúcidos. Também alguns amalucados como o Partido da Causa Operária (PCO), que defende armas e Talibã.
Acaba que, num contexto mais amplo, a esquerda está morta — os resultados das eleições municipais de 2024 são um bom indicativo.
Resta saber se Lula levará a esquerda junto para o caixão ou brotará alguma mudança no meio dos escombros.
Douglas Roehrs é jornalista, escritor e cineasta. Criador do ecossistema da Insígnia Filmes.



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